Saída do marqueteiro
Rove retrata fim da “era Bush”
13/08/2007
Pra quem gosta
de acompanhar a política americana, o segundo mandato de George W. Bush terminou
nesta segunda (13/8), com a
saída de seu marqueteiro político e assessor na Casa Branca, Karl Rove. Ele é o estrategista eleitoral que deu
a Bush pelo menos duas eleições – as de meio termo em
2002 e as presidenciais de 2004. As de 2000 valem como fracasso do candidato democrata, Al Gore, ajudadas ainda pela Suprema Corte.
Karl Rove é um ícone para marqueteiros
no mundo inteiro, especialmente quando se trata de transformar em vencedor um candidato sem
óbvias qualidades (como Bush) ou, o que não sei
se é pior, quando se trata de manter no poder quem notoriamente
não mereceria continuar. As táticas de campanha do “arquiteto”, como Bush gosta de chamá-lo, são simples porém altamente eficientes: encha de medo seus próprios
eleitores, bata no adversário e minta.
Isto apenas não teria sido
suficiente para explicar como um presidente apanhando no Iraque e balançando nas pesquisas de opinião (como Bush, em 2004) pode ainda vencer
de maneira convincente.
Rove tinha o dedo no pulso do lado “profundo” dos Estados Unidos, sabia sentir e, dizem seus admiradores, pressentir como os eleitores
se comportariam.
Ao contrário do que diziam muitos
analistas políticos, Rove percebeu que o eleitorado hispânico não necessariamente seria um eleitorado democrata, especialmente no Sul do país. Teve
toda razão. Soube usar
como arma a palavra “liberal”, que no vocabulário político americano tem outro significado. Não chega a ser sinônimo de esquerdista (muito menos um liberal convencional no jargão político europeu), mas
traduz o que boa parte do eleitoral detesta: o casamento gay, o movimento feminista, a tolerância política e religiosa, a política externa balanceada, o respeito a outros países e aliados.
A capacidade
de Rove em colocar seus adversários na defensiva
foi sua marca
desde os tempos de Bush no Texas. Em alguns
pontos ele era capaz de boa sátira crítica e irônica em relação à
sociedade americana: costumava celebrar “reuniões do colesterol”, encontros para discutir política
em animados cafés-da-manhã com ovos e bacon, uma maneira de ridicularizar o que ele considera excessiva
mania americana pelo politicamente
correto, começando pela primeira refeição
do dia.
Mas, como todo marqueteiro,
preocupado exclusivamente
com a vitória no curto prazo, Rove deixa um legado catastrófico. O governo Bush será lembrado provavelmente pelos desastres que provocou, e não pelas vitórias
nas urnas. Pela habilidade em provocar o pior
da “América profunda” (o preconceito, a arrogância, o radicalismo religioso) – em resumo, pela
desonestidade política.
Não se trata aqui do ilegal – embora Rove tivesse sido envolvido em vários escândalos
que custaram a cabeça de gente bem próxima ao
presidente, até hoje não foi
acusado por crime algum. A desonestidade política é a capacidade do marqueteiro em esconder fatos, torcê-los para passar o período de uma eleição e, depois, dizer que
o eleitor “aprovou” a conduta do vencedor.
Continuo acreditando que os fatos acabam
se impondo às artimanhas políticas, por mais hábeis
que possam parecer no curto prazo. Quanto mais
esse processo demorar, pior será
o preço a pagar por uma sociedade
ou um país. No caso dos Estados Unidos, dois anos
depois da última grande “vitória” arquitetada por Rove, os republicanos
foram trucidados nas eleições de meio termo. É uma
das causas da sua saída.
O que
não se pode negar a Rove é ser um grande conhecedor da política
americana. Saiu nesta segunda fazendo
duas profecias. Vamos guardá-las, pois não falta
muito para serem conferidas. Hillary Clinton
será a candidata dos democratas à Casa Branca em 2008. E ela será derrotada
por novo nome republicano.
William Waack