Clash of the Titans — the United States and China

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Estamos numa época de transição, a economia americana, em declínio, está e vai se confrontar, cada vez mais, politicamente com a China, cuja economia produtiva e financeira se desenvolve em viagem fascinante. E o que está fazendo a diferença nesse momento no conflito é a posição dos dois Estados face à estratégia para definir a sociedade econômica de cada nação, para definir as formas de encarar o confronto social, para definir o futuro do capitalismo. De um lado, temos um Estado frágil na condução da política econômica, mas extremamente benevolente para os capitais, o Estado americano, e, de outro, um Estado que comanda e dirige a economia com características desenvolvimentistas, o Estado chinês. Qual a diferença estratégica dos dois?

A DANÇA DA MORTE E O CASSINO AMERICANO

No primeiro caso, nós temos um país, os Estados Unidos, cuja estratégia é continuar sendo a nação mais desenvolvida do mundo. Só que essa estratégia começa com duas realidades. A primeira: politicamente, para manter a posição de vanguarda, o país assume o estatuto de potência dominante, agressiva e invasora no plano militar, como, por exemplo, ocorreu na guerra do Iraque. Nela, o que sobressai é a amplitude da ação bélica para atingir a sua política energética, cujo objetivo, ouro negro em ebulição, é conservar intactas as suas reservas e buscar petróleo barato no exterior. Ora, o Estado americano proclamou sua unilateralidade com George Bush e praticou a dança da morte, como diria Pieter Brueghel, no Oriente Médio. Mas, de outro lado, a segunda realidade: esse Estado desarticulou da sua estratégia uma política econômica global, que tivesse objetivos de política industrial, de política agrícola, de política tecnológica, de política de salário, etc. Restou apenas um apoio genérico às finanças, deixando as instituições financeiras livres para fazerem a sua própria política. Jogou fora essa política global como se fosse uma viatura descabelada, tornou os seus movimentos erráticos, com espasmos originados dos capitais singulares. Dito de outra forma, foi a soma de decisões micro que constituiu a política macroeconômica.

Com isso, abdicaram os norte-americanos de um projeto de desenvolvimento produtivo renovado tecnologicamente, para centrar todas as suas armas numa economia financeira. Depois de viverem as delícias de um cassino – todos especulavam desvairadamente – levaram um tombo por causa dessa insanidade econômica. Estiveram no paraíso e caíram no labirinto da crise. E para chegar a tal situação, alimentaram um processo de desregulamentação na área financeira que favoreceu com intensidade a árvore das finanças, mas que terminou precipitando a economia para o risco sistêmico e, portanto, para a sua explosão. Uma desbragada vertigem sem controle. Ou seja, o Estado americano fez uma cisão na sua estratégia de manter a hegemonia mundial. De um lado, jogou fortemente numa ação militar e de outro lado, permitiu a expansão de um modelo de acumulação financeira. A riqueza fictícia das finanças seguiu numa trajetória, a ficção da guerra ao terror noutra. Aquela levou a desconfiança do valor dos títulos financeiros e essa trouxe o combate doloroso do equívoco estratégico. Foram processos distintos, mas, no fim, a busca da riqueza petrolífera pela guerra, escondida na expansão da “democracia e livre mercado”, capotou tanto quanto a tremenda paralisia do sistema financeiro.

O Estado americano hoje está em face de uma decrepitude desenvolta. De um lado, as finanças, abatidas no galope econômico, não cederam politicamente, ganharam pacotes de salvação, linhas de crédito e não aceitaram uma regulação de suas atividades. De outro, o fracasso da estratégia de Bush e Cheney para o mundo, concentrada exemplarmente no Iraque, tem que sofrer mudanças substanciais, seja reformulando a política do Oriente Médio, seja se posicionando militar e economicamente contra a China, inclusive aliando-se à Rússia, seja buscando chegar-se ao petróleo brasileiro e recuperar a sua influência na América Latina, seja produzindo uma nova relação com a Europa, etc. O grave problema é que os Estados Unidos não têm hoje uma estratégia econômica de longo prazo. Sua progressiva ação na direção de um padrão tecnológico distinto do atual está totalmente impedida por falta de uma política de desenvolvimento econômico, pela recusa das finanças em financiar o setor produtivo, pela concentração total dessas atividades no curto prazo. Vendo isso é que Obama está tentando emplacar uma espécie de Banco Nacional de Desenvolvimento (uma grande novidade) para fazer face à falta de crédito para a produção e para a renovação da tecnologia. Só que isso tem que passar pelo Congresso, tambor das contradições sociais, avesso a qualquer aumento de dívida, seja com que finalidade for. Percebe-se com clareza que o Estado americano é um ser amarrado, atado pelas finanças, pela política imediatista, pela política bélica, pela derrota na guerra iraquiana. A institucionalização neoliberal fracassou, o defunto morreu, mas não foi enterrado, está ali no caixão. Acho que é fatal, mais dia, menos dia, o Estado americano vai ter que reagir à presença avassaladora da China, alterando inclusive o estatuto do seu Estado. Ele vai ter que ter nova estratégia e uma nova posição na política econômica que não se reduza ao agora, ao já das finanças. Para ultrapassar o nível atual de fragmentação de seu projeto de continuar como a maior potência do planeta, os Estados Unidos precisam construir o que lhe falta, a unidade do Estado, que o sistema financeiro e a ação militar em desarmonia impediram que tal acontecesse.

O LONGO PRAZO FALA CHINÊS?

A China, por sua vez, está na liderança da organização do Estado pois, com modelo de um Estado desenvolvimentista, ela tem uma estratégia, não explícita, mas nem por isso secreta, de consagrar-se num futuro não muito distante como a primeira potência do mundo. Portanto, uma estratégia política, que se desdobra numa política econômica. Essa, desde logo, é global, pois tem um objetivo econômico muito claro de superar a defasagem que a economia chinesa tem da economia americana. E a China vai com passos de longo alcance construindo um projeto produtivo, onde, antes de tudo, labora em todos os setores: bens de capital, bens de consumo duráveis, bens de consumo não duráveis, visando ser a locomotiva industrial do mundo. E para tal, busca aquilo que lhe falta, matérias primas e alimentos na Ásia e na América Latina e África, tecnologia nos Estados Unidos, Japão e Europa. Trabalha ardorosamente para solucionar seus problemas energéticos. Mas, nos próximos anos não terá a possibilidade de alcançar as condições de alterar o padrão de produção e o seu grau tecnológico. Só que, se os Estados Unidos bobearem, dentro de alguns anos, a China, no correr de seu desenvolvimento, estará na rota da expansão das áreas de tecnologias de comunicação e informação. Toda a questão nesse quesito é a possibilidade ou não dos chineses encurtarem ou suprimirem a vantagem americana na estrutura tecnológica.

Assim, o que importa nesse panorama é a idéia de que a China tem dado um salto na velocidade do avanço na competição entre os dois países, porque o seu Estado tem um acentuado domínio da estratégia política e econômica. A China tem uma unidade no Estado e, por conseqüência, a política dirige a economia. E é por isso que ela, a China, pode, contra a tirania do mercado, controlar a taxa de câmbio e os fluxos de capitais. É por isso que ela pode trabalhar uma política de exportação e de importação. É por isso que ela pode desenvolver uma política coerente de reservas monetárias. É por isso que pode construir uma política de investimentos na seqüência dos ditames de sua organização macroeconômica. E, não se pode esquecer, que mesmo diante da crise de 2007, com efeitos profundos sobre o comércio externo e as reservas e suas aplicações financeiras no exterior, a China pôde introduzir modificações na sua estrutura econômica reorganizando o seu próprio espaço produtivo e articulando a Ásia, a África e a América Latina. Tudo em função de uma estratégia e de uma política de desenvolvimento garantida pela unidade do Estado. Há todo um jardim para ser florido. Claro, as mudanças ocorridas no contexto da crise causaram algumas inquietações sociais no país, mas o governo teve força para solucionar essas turbulências, em função de uma saída ordenada da derrapagem cíclica. A razão, não há dúvida, é só uma: a unidade do Estado.

O Estado chinês tem o controle da situação nacional, dos seus objetivos, dos seus recursos e dos seus limites. Tem bem claro que não pode enfrentar os Estados Unidos no campo militar, no campo político, no campo cultural, no campo tecnológico, mas no campo da indústria, da organização do Estado, do planejamento, da coesão estratégica, ele tem um futuro prontamente desafiador. E, sobretudo, a China tem claro que pode por em questão a moeda americana e que pode, no médio prazo, construir uma moeda chinesa, rival do dólar e do euro. Ao mesmo tempo, ela sabe do seu fantástico potencial de mercado e das condições de alcançar transformações tecnológicas profundas no longo prazo, por causa do seu desenvolvimento educacional. E ela tem expectativas de obter padrões ambientais razoáveis no médio prazo, na procura de uma sociedade com melhores condições de vida que no presente. E a razão essencial de toda essa ambição está na organização de um Estado unitário. E ao dinamizar o seu capitalismo financeiro estatal – que atenta tanto para o crédito interno à produção, como para a concorrência financeira internacional – a China tem vantagens dinâmicas na sua elasticidade econômica, quanto na concorrência política entre nações, liderando o bloco dos emergentes. E até se destacando dele, para se posicionar como o futuro rival dos americanos.

O FUTURO DO CONFLITO PASSA POR ONDE?

Se o leitor seguiu o raciocínio proposto por este artigo, ele é capaz de construir o filme dos próximos anos, o duelo de Titãs. E nesse duelo, nós vamos ter a disputa da hegemonia no interior do capitalismo. É preciso reconhecer que o capitalismo não pode viver sem Estado. E é exatamente isso que já tem a China, um Estado que tem uma coerência e unidade entre a estratégia e a política econômica. Porém, no campo político a China vai ter que ter muita habilidade para evitar um confronto direto com os Estados Unidos, cuja superioridade militar é indiscutível. Só que, em função da unidade do Estado, a China leva uma vantagem notável, porque a sua sociedade não está paralisada, está em processo dinâmico. E hoje os chineses estão jogando com segurança, porque o balanço de seus pontos positivos e de seus pontos negativos permite que eles saibam aonde vai o céu azul e onde estão as labaredas da fogueira. E mais, com a crise chegando a pontos dramáticos, a recessão e a depressão se encaminhando para tomar a respiração do Ocidente, a China está proporcionando o modelo para que os diversos Estados possam reagir diante da crise, fortalecendo a sua ação.

Por incrível que pareça, até o momento, a crise ainda não atingiu aquele ponto onde os conflitos dos capitais e das nações chegaram a desestruturar a economia e a política. Alguns Estados – os menores é verdade, como a Grécia, Portugal e a Irlanda – já estão nesse caminho. Mas a solução, por enquanto, tem sido neoliberal. E duvido que ela resolva a questão, a não ser rebaixando e remodelando os países dentro do atual sistema de dominação. Então, nessa coisa do futuro, o que parece surgir no horizonte histórico é a passagem da unipolaridade americana para a bipolaridade China e Estados Unidos. E nela, a questão decisiva tem tudo a ver com o papel do Estado em todas as suas dimensões, desde o projeto estratégico até a constituição das estruturas da entidade estatal e da reorganização de sua burocracia. O combate está no tabuleiro do xadrez. E nele a disputa se alargará, a tensão Estados Unidos e China vai compor a harmonia e a discórdia da adversidade básica, que ordenará o alinhamento/desalinhamento dos demais Estados, incluindo o Brasil. A constelação política terá uma organização em função dessa contenda básica. Do contraste cada vez mais forte entre as duas grandes potências e do papel do Estado é que dependerá a composição do elenco hierárquico das demais potências e nações. O conflito elementar está se deslocando, até mesmo imperceptivelmente, só que de modo firme. A longa duração do capitalismo, na sua força ainda não desmentida, já principia a dispor o movimento dos atores na direção de uma futura mudança estrutural. O que vai trocar é o conflito que organiza a política, ao mesmo tempo em que esse contexto permitirá o surgimento de um novo padrão econômico, uma nova “Golden Era”, como diz Carlota Pérez. O bafo na nuca, no entanto, é a recessão que se avizinha. E a pergunta é óbvia: será criativo ou destrutivo esse conflito que está se instalando? A saída, cujo corpo está escondido, tem um olho e uma face que proclama mais capitalismo, mas, de qualquer maneira, com mais Estado e com uma outra relação entre as finanças e a produção.

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