Washington and the New Economic Order*

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e estivéssemos a fazer isto em França, diriam que éramos comunistas,” afirmou recentemente ao “Financial Times” um membro do Governo francês. A proposta da Casa Branca sobre uma nova ordem económica internacional passou despercebida entre nós. Há dois meses, Jake Sullivan, conselheiro nacional de Segurança do Presidente Biden, foi à Brookings Institution fazer um importante discurso sobre a forma como Washington avalia a evolução da economia e da sociedade dos Estados Unidos.

No centro da sua intervenção está uma visão negativa da América nas últimas décadas. A globalização, a deslocalização da produção industrial para a China e o desaparecimento de empregos qualificados enfraqueceram a classe média e a democracia americana. Os Estados Unidos, afirma Sullivan, necessitam de uma nova política de inovação de base tecnológica para restaurar a confiança nas suas instituições democráticas, melhorar as perspetivas da classe média, competir com a China e ganhar o apoio político dos seus cidadãos para a transição energética.

Há 30 anos, o principal objetivo económico de Washington era a redução de tarifas alfandegárias e a liberalização do comércio. Hoje, o que mais lhe interessa é um crescimento económico duradouro, empregos de qualidade que apoiem as famílias, cadeias de valor logístico diversificadas, garantia de mais direitos para os trabalhadores e mobilização do investimento público e privado para a eletrificação a nível interno e externo. Instrumentos legislativos aprovados pelo Congresso, como o “Inflation Reduction Act” e o “CHIPS and Science Act” resultam desta nova visão económica para atrair talento, tecnologia e capital estrangeiro.

Este facto foi imediatamente apreendido pelas capitais europeias, que receiam que os incentivos fiscais e os subsídios oferecidos pelo Governo federal e pelos vários estados norte-americanos influenciem o processo de decisão e escolha das empresas europeias. Ao contrário de Washington, os europeus têm uma visão otimista do futuro da América e receiam que novo consenso entre democratas e republicanos para uma nova política industrial acabe por diminuir a competitividade das suas empresas e enfraqueça o Velho Continente.

Washington defende que esta sua proposta de nova ordem económica internacional não será feita à custa dos interesses dos seus aliados ou parceiros. Todavia, o facto é que a agenda económica da Administração Biden tem uma componente nacionalista muito forte de “buy american”. O discurso de Sullivan resulta de uma forte mudança, nos Estados Unidos, da relação entre Governo e mercado, de uma avaliação de risco que aceita uma ineficiência inicial para manter no seu território indústrias que considera essenciais para a segurança nacional e assume que uma intervenção significativa na economia terá bons resultados.

Os Estados Unidos passam, assim, a ter uma política industrial explícita para defender os seus interesses permanentes. Daí a surpresa e alguma inveja em Paris. A dificuldade é que esta política americana está em contradição com a atual ordem económica internacional. Aguardam-se reações de aliados, parceiros e rivais.

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